O ponto mais alto da colina de São Jorge — hoje ocupado por um dos monumentos mais visitados de Portugal — tem uma ocupação humana ininterrupta de cerca de dois milénios. Antes de tudo o que hoje existe, houve aqui um castro romano, uma fortaleza almorávide, uma almádena muçulmana, e por fim o castelo que o rei João I rebaptizou em honra do santo padroeiro da guerra contra Castela, em 1374.

Antes do castelo: o Castro romano

Os vestígios arqueológicos mais antigos conhecidos na colina datam do século I a.C. Os historiadores apontam uma forte romanização da região, com vestígios de vias e fragmentos cerâmicos compatíveis com um pequeno agrupamento militar. A escolha deste local era estratégica: dominava-se visualmente o estuário do Tejo e, por consequência, qualquer aproximação fluvial ao coração do território Olissipo.

O período islâmico (séc. IX – 1147)

Durante a primeira onda de domínio muçulmano da Península Ibérica, iniciado em 711, a colina foi ocupada pelos mouros que reorganizaram o antigo espaço romano. Construíram-se muralhas em taipa reforçada com pedra, ergueram-se torres de vigia e cisternas para armazenamento de água pluvial. Documentos posteriores descrevem uma estrutura poliorgânica com onze torres, perímetro interrompido por adarves e pelo menos uma alcáçova interior onde vivia o comandante militar.

O topónimo original em árabe era Mansur al-bahr (a fortaleza do mar), referência ao seu domínio visual sobre o Atlântico via Tejo. A designação evoluiu em fontes cristãs para Alcáçova do Mar, e depois simplesmente Alcáçova de Lisboa.

1147 — A tomada de Lisboa

A reconquista cristã de Lisboa, comandada por D. Afonso Henriques com cruzados ingleses, alemães e flamengos, teve o seu episódio decisivo na conquista desta fortaleza. Os sitiantes demoraram cerca de cinco meses até que, no dia 10 de Outubro de 1147, a guarnição moura se rendeu. D. Afonso Henriques concedeu o castelo ao arcebispo da cidade, que o administraria durante quase dois séculos.

"E assim tomaram a cidade e a fortaleza, e o rei deu graças a Deus pela vitória, e aos cruzados o devido soldo." — Crónica da Tomada de Lisboa, atribuída a mestre Gilberto de Hastings (c. 1148).

O nome: dez alterações em dois milénios

Castelo dos Mouros, Alcáçova Real, Castelo de Lisboa, Castelo Real, Torre de Almançor... nenhuma destas designações é errada — todas nomearam o mesmo sítio em épocas diferentes. A designação actual foi fixada em 1374 quando o rei Fernando I, e mais tarde o seu neto João I, comprometeram-se a manter a fortaleza sob a invocação de São Jorge, patrono militar na época da guerra com Castela que culminaria na batalha do Salado (1380).

Do século XIV ao terramoto de 1755

Durante a dinastia de Avis, o castelo tornou-se essencialmente palácio régio de uso intermitente. Construiu-se a chamada Casa do Governador, residências nobres, e a actual cisterna em alvenaria que ainda hoje se visita. Foi cuartel-general militar durante a União Ibérica (1580–1640), e sofreu com a Guerra da Restauração.

O grande terramoto de 1755 provocou danos estruturais sérios. As muralhas perderam parcialmente o seu paramento oriental, e algumas torres ficaram seriamente afectadas. A transferência da corte para a zona da Baixa Pombalina acelerou o abandono da colina.

O século XIX e a destruição parcial

Em 1833, durante a guerra civil entre liberais e absolutistas, o conjunto foi campo de batalha e nunca foi alvo de qualquer programa sério de restauro. Em 1862, a rainha D. Estefânia pagou do seu próprio bolso a plantação do Passeio das Palmeiras que ainda hoje existe junto à entrada, mas o resto do recinto permaneceu largamente em ruínas até ao início do século XX.

É difícil encontrar um único dispositivo militar em Portugal com esta densidade temporal: romano, islâmico, cristão-medieval, manuelino, barroco, e finalmente musealizado no Estado Novo. Visitá-lo hoje é pisar, literalmente, dois mil anos de História de Portugal.

Fontes consultadas: Crónica da Tomada de Lisboa, códice cotado CXIV/2-3 da Biblioteca Pública de Évora; Lisboa Islâmica de Manuela Mendonça; documentação municipal online em lisboa.pt.