O conjunto de São Jorge acumulou ao longo dos séculos um dos mais ricos corpus de lendas orais de qualquer monumento português. Trata-se de histórias em que a linha entre história documentada e mito se esbateram ao longo de gerações - algumas chegaram até nós sem suporte documental, outras têm versão confirmada em fontes medievais.

A lenda do Rei Vataça

Segundo a tradição oral mais repetida em Alfama, o fantasma do Rei Mouro Vataça passa por uma porta da muralha entre as 9h00 e as 22h00 do dia de São Jorge (23 de Abril). Reza a história que Vataça, comandante mouro durante o cerco de 1147, foi traído pelo seu próprio irmão ao ver a derrota inevitável e evade-se depois, deixando Lisboa para nunca mais. Teria sido convertido ao Cristianismo in extremis e enterrado em segredo dentro da fortaleza - o que explicava a sua presença póstuma a guardar os dois credos em conflito.

A lenda não tem validação histórica sólida. O personagem Vataça aparece em crónicas árabes como governador de outras praças, não de Lisboa. Mas a acolhida popular mostra como a figura do comandante mouro justo e vencido se enraizou no imaginário colectivo.

O cavalo do palácio do Governador

Em testemunhos orais recolhidos em 1927 pelo folclorista Pedro Catela, receavam-se duas posições específicas: a porta do palácio do Governador depois das seis da tarde e a cisterna. Razão dada: passos invisíveis suspensos sem ruído de queda, atribuídos a um cavalo de aparato do século XVII.

O Túnel dos Templários

Tema persistente: a existência de um túnel subterrâneo ligando o Castelo de São Jorge ao Convento de Cristo em Tomar, sede da Ordem dos Templários em Portugal. As escavações arqueológicas realizadas em 2015 não encontraram qualquer evidência dessa galeria. Mas a lenda é tão forte que continua a ser repetida em publicações turísticas sérias, o que nos lembra como a história oral ganha autonomia face à história factual.

A mula da rainha Leonor

Rainha D. Leonor (século XV) - fundadora da Misericórdia - aparece em várias lendas do bairro. A mais persistente: durante uma tempestade, o animal de carga que transportava as suas esmolas caiu de uma encosta próxima da atual Rua dos Remédios e partiu a perna. A rainha ofereceu a proteção real ao animal ferido e mandou erguer uma capela no local exacto - actual Capela da Senhora da Saúde.

As aparições modernas

Relatos mais recentes (registados em locais online de resolução de enigmas urbanos) mencionam visualizar uma figura feminina pálida a subir a Rua de Santa Cruz do Castelo ao amanhecer, em pleno Inverno. Não há confirmação jornalística - mas a continuidade da tradição oral mostra como um monumento antigo funciona como suporte vivo para a imaginação colectiva de uma cidade.

Cuidado com as lendas publicadas como factos: a história do túnel dos Templários, o fantasma do Rei Vataça em datas específicas, e o cavalo invisível do palácio do Governador não têm evidência primária suficiente para serem tratados como factos históricos. Mas são parte integrante da cultura popular.

O que estas histórias nos ensinam

A oralidade de uma cidade é tão importante para a sua identidade quanto o seu património documentado. As lendas do Castelo de São Jorge são, elas próprias, património - e como tal merecem ser preservadas com a inflexão ética de distinguir o que é história oral do que é história factual.